27/06/2013

Camila II

Levantou a cabeça sem querer sair da cama, não via motivo, o emprego era chato, a vida sem sentido. Havia realmente um ponto em sair da cama para reclamar do mundo em uma rede social qualquer por todo o dia a fio? Puxou o celular e acessou o aplicativo, ninguém dizia nada interessante, foi para o banho enquanto a mãe fazia o café. Tudo era sempre igual.
No caminho mantinha as músicas no modo aleatório tentando ter uma surpresa boa, nada.
“Hey...”
“Peguei seu número no twitter. rs”
Parecia 'Mensagem pra você' e seria se ela fosse a Meg Ryan, mas as coisas nunca eram tão fáceis (e nem ela tão bonita).
“Heey.”
“Imaginei!”
“Tudo bem?”
E foi desse jeito bobo que começou, como um nada despreocupado e sem pretensão, uma conversa simples sobre o tempo e o atraso e o Sol (ou a falta dele) e em uma semana elas já se pertenciam. Incondicionalmente. Totalmente. De um jeito puro, simples mesmo. De um jeito que eu ainda não entendo.
Percebeu que não precisa estar perto pra amar pra caralho.
Se jogou e se sentiu sem fim, se sentiu fazendo sentido e errada pra caralho. Queria tudo, sim, não, hoje, amanhã, café, cafuné, dia, noite e, tinha uma saudade sem sentido, pois nunca havia tido. Ainda não teve, mas nesse momento é mais questão de escolha, de saber se vale a pena o risco de quebrar a cara, se jogar contra um muro e esperar que ele desmorone no instante certo.
Foi isso que a outra construiu um muro. Muro intransponível, mas cheio de respiros, de frestas por onde ela tenta vazar, por onde ela ve a luz e tenta desesperadamente fazer parte. Aquele mundo não é o dela e nunca vai ser, ela sabe, mas ainda assim, ela tenta, ela luta contra aquele muro e ela espera vencer um dia.
Ela morre um pouco todo dia. A cada tweet, a cada indireta, a cada mostra de felicidade por que, apesar de ficar contente com a felicidade da outra, ela sabe que nada daquilo é pra ela, aquele coração de muitos amores não guarda o dela – ou talvez guarde, mas parece escondido demais.
Amor é pra sempre, e o dela sempre foi e sempre vai ser. Mas toma cuidado por que se algum dia o muro cair você vai encontrá-la lá, sentada, a espera, porém já meio morta, meio endurecida. A vida tem isso de endurecer as pessoas e ela já passou por umas coisas bem duras, toma cuidado com ela, por que você não precisa dar tudo que ela sonha, só fica perto, se preocupa, manda ela se cuidar de vez em quando, pergunta dos remédios, dos livros; ela vai saber o que falar, vai saber transpor o muro e deixar um pouco de intimidade correr.
Tudo que ela precisa é uma chance.
Uma única chance de mostrar que ela ainda tem valor.
Ela não mudou, ela espera a menininha do portão.


Menina, quando você passa
Me leva junto com você
Se me olha eu fico sem graça
Só me diga como vou fazer
Pra te ter aqui bem do meu lado
Sem hora pra poder te amar
Sem teu cheiro eu me despedaço
Sem teu colo eu não vou aguentar
Agora vem, cade você?
Te quero aqui, meu bem querer
Agora vem, vou te buscar
Te quero aqui só pra te amar
Menininha, quando você passa...



Menina Camila. Derruba o muro e deixa esse negócio estranho sair por ai e fazer todo mundo feliz. Ela não quer nada, ela é a Larissa, lembra? Ela entende.

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Eu não faço sentido, eu sei, não quero e depois eu quero de novo, mas eu sei que o que importa não é o quereres, é o que eu faço.
Só quero fazer parte.
Eu cresço e meu diagnóstico muda e a vida anda e empaca e anda de novo e eu saio pra rua e faço amigos e volto e quando deito na cama ainda penso no que poderia ter sido e não foi. Penso na falta de vírgulas e converso com aquela menina que não entende minhas piadas e que abrevia 'jogo' e que não sabe ler as entrelinhas e não conhece muita coisa de música brasileira e eu fico com vontade de chorar por que você está lá, online, mas tem aquele muro invisível que me mata e aquela falta de intimidade que eu sei como transpor, mas não lembro se ainda posso.
De quem é o próximo passo?
Quem anda agora?
Eu andei? Dei passos na sua direção ou foi só na minha cabeça?
Quem errou? Quem desistiu? Quem achou que ainda tinha algo que valia a pena?
Isso importa?
As Camilas me tiraram do meu lugar, da minha zona de conforto e me jogaram no mundo. Uma delas vai ter que vir me salvar.

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