06/06/2013

Who's gonna watch you die?

Who’s gonna watch you die

Ela pensando em mim.
É isso que as horas me mostram, 23:23.
Embora hoje eu já não saiba ao certo se é em mim que ela pensa. Pra lembrar eu ouço Bixby Canyon Bridge, nossa música, era o que tocava na primeira vez que nos vimos, num bar no centro cultural daqui.
Naquela noite eu só queria beber e quem sabe encontrar alguém pra conversar, mas quem apareceu foi ela, ela que parecia mais soneto que prosa, mais romance que folhetim. E eu ali, condescendente com o mal que sabia ser causado por aquela presença, eu que era romantismo e nada mais, um conto e ponto, fiz o que todo homem devia fazer frente aquela situação: me deixei seduzir. Maldito erro meu.
Criei teorias para minha escolha ter sido essa, criei versões diferentes, criei pessoas para aquele bar, criei uma vida que, para meu pesar, nunca existiria. Errei e foi só. Levei tempo demais pra perceber o quanto de mim se esvaía em cada beijo, tempo o bastante para que ela nunca quisesse ir, tempo o suficiente para que nada conseguisse destruir o amor que erroneamente também criei.
Era uma noite de pesadelos. Era briga. Era ódio. Era tesão. Era erro. Era irresponsabilidade. Era incêndio. Eram os gritos dela. Eram os vizinhos chamando a policia. Era dor, dor e tormento.
Era tudo o que eu precisava para preencher minha vida vazia. Ela era tudo que eu precisava para matar a solidão, mas, não foi o bastante – nunca é o bastante – eu fiz tudo que pude para que ela fosse e quando ela ameaçava ir eu a segurava mais forte e dizia que tudo ficaria bem, que juntos iriamos vencer a crise. Hoje em dia solto uma risada muda junto com a lágrima que cai enquanto escrevo, nada nunca ficou bem, nunca ficaria, ambos sabíamos disso, mas mentir é sempre melhor, menos doloroso enquanto não se descobre a mentira mas depois. Ah, despois você queima por dentro como se fosse um daqueles engolidores de fogo do circo, mas você nunca engoliu fogo no circo então você não sabe como fazer aquilo direito e ai você descobre que seu interior está em chamas e nenhum bombeiro vai apagar o incêndio que você mesmo criou, ele é sua responsabilidade. É seu incêndio, sua culpa então vá lá e acabe com a água do mundo enquanto continua mentindo pra si mesmo, pensando que se você conseguir aquele último balde, aquela última gota tudo vai acabar e você vai ficar bem quando na realidade você sabe que não vai acabar por que mesmo depois que acabar ela vai te ligar bêbada no meio da noite dizendo que te ama e você vai busca-la, vocês vão transar e na madrugada ela vai sair escondida deixando pra trás um brinco esquecido no banheiro e um bilhete com um ‘obrigado’, escrito com sua caneta preferida, bem com aquela que você usa menos pra que a tinta demore pra acabar.
Eu invejo aqueles que passaram despercebidos por ela, não que ela seja uma cobra terrível que dará o bote assim que a vitima pegar no sono, mas existe sempre a possibilidade dela se apaixonar e se isso acontecer tome cuidado, ela ficará pra sempre, se tornará uma tatuagem em sua pele e mandará um sms vez ou outra ‘só pra saber como você está’. Dessa vez a risada não é muda, é simples e sai meio que abafada pela lembrança que me ocorre ainda, a primeira transa. Fatídica primeira transa.
McDonald’s, minha casa muitas risadas falsas e mãos dadas nas ruas pela primeira vez. Colchão jogado no chão, música ligada e aquela falta de jeito comum a quem não conhece corpo do outro. Tivemos aquela conversa obrigatória que vem seguida de piadas para não deixar o constrangimento tomar conta do ambiente e então ela disse: eu sabia que ia me apaixonar por você. Eu dei risada fingindo não ter entendido e me levantei para trocar de música por que Marching Bands Of Manhattan não é boa para a situação.
Quando eu acordei ela ainda dormia, estava agarrada ao meu braço e respirava pesadamente. Eu a acarinhei e ela se aninhou em meu ombro.
Eu a amava.
Ela dizia que Summer Skin era melhor do que Bixby Canyon Bridge para um namoro mesmo antes de começarmos a namorar, quando ela veio morar comigo eu percebi o quanto aquilo seria complicado, ela perguntava se eu ia deixa-la até mesmo quando eu acordava no meio da noite e me levantava para ir ao banheiro. Não era ciúme, digo logo antes que você conclua isso, era simplesmente o velho e conhecido medo de ficar sozinha. Quem tinha ciúme era eu, checava as mensagens e as ligações do celular, o histórico do msn, os últimos sites visitados no notebook, perguntava o que ela havia feito durante o dia com o máximo de detalhes possíveis, perguntava tudo, mas sempre aos olhos dela, nunca escondi meu medo de ser traído, ela dizia ser bobagem, nunca faria aquilo comigo porém a realidade sempre é diferente do sonho.
Ela me traiu, mais de uma vez, me contou e eu a perdoei. Eu era o cachorrinho, fazia tudo por ela e talvez por isso ela tenha procurado outro, um que a tratasse como a vadia que era.
O engraçado é que nem foi por conta das diversas traições que terminamos. A verdade sobre o término não é fácil (a verdade nunca é, porém como já disse, se enganar é sempre mais fácil) por isso nós a escondemos mas não creio que essa seja a ocasião certa para tanto.
Eu a perdi. Simples assim. Um dia nós acordamos e ela não era mais minha.
Não era possível continuar, com o passar dos dias percebemos que não nos conhecíamos, não sabíamos mais o jeito certo para cuidar um do outro. Ela acordou um dia e disse “vou embora hoje”, eu somente concordei acenando com a cabeça e dei um beijo em sua testa.
Hoje em dia ela é um amor passado. Uma lembrança suja que não me deixa seguir em frente. Uma mancha negra em minha vida parda. Por vezes ela é uma mensagem às três da manhã, um e-mail no fim da tarde ou até mesmo uma ligação me desejando um bom dia ou boa sorte quando ela descobre que estou prestes a fazer algo novo.
Ela ainda é meu maior amor, o único real eu creio.
Escrevo isso em minha cama no hospital, enquanto vejo todos a minha volta chorando minha breve morte recebo um sms que diz: “enquanto todos levantam a cabeça para a enfermeira eu me lembro do que a Sarah disse, amor é assistir a morte de alguém. Manda tua irmã me avisar quando você piorar, eu vou até ai te assistir.".

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